• Bruno Machado

A tecnologia de RPA veio para ficar ou já está de partida?

Deveríamos pensar em Robotic Process Automation como algo definitivo ou paliativo?


Robotic Process Automation (RPA) é uma tecnologia que surgiu como uma evolução natural das ferramentas de fluxos de trabalho (workflow), representando uma alternativa mais acessível para automatizar atividades manuais realizadas em diferentes sistemas ao longo de um processo.


Diferentemente das integrações entre sistemas — que requerem esforços de programação e ou a criação de interfaces (APIs) — a tecnologia de RPA atua primordialmente automatizando a navegação entre telas de sistemas e páginas web, eliminando os passos (cliques) manuais dos usuários e garantindo a execução de forma ininterrupta (24 horas por dia, sete dias por semana, 365 dias por ano).


Ainda que essa ideia não seja nova — desde os mainframes, scripts são desenvolvidos para automatizar tarefas em telas de sistema — o RPA vai além e permite automatizações mais elaboradas, com uso de conectores para uso combinado com outras tecnologias, como OCR (Optical Character Recognition), machine learning (reconhecimento de imagens) e tantas outras.


A grande evolução trazida pelo RPA é a interface amigável para criação das automações, algo que permitiu acelerar o ritmo de implementação e o uso descentralizado nas empresas, reduzindo a dependência das áreas de negócio com a área de tecnologia.


Atividades repetitivas passaram a ser objeto de automatizações realizadas pelas próprias áreas executoras, tais como buscar dados em um sistema e cadastrar em outro ou receber e-mails e dar as tratativas internas seguindo fluxos definidos.


Nas grandes empresas é comum que essas oportunidades de melhoria tenham baixa prioridade para integrações de TI, considerando que o retorno financeiro muitas vezes não é justificável e além disto, elas competem com iniciativas mais relevantes no âmbito da digitalização da empresa.


O apelo para o uso de RPA está justamente na promessa de superar essa barreira de execução que as pequenas automações estão condicionadas.


Por oferecer uma interface amigável e reduzir a necessidade de grandes integrações, o seu uso se traduz em ganhos rápidos de produtividade. Ainda sob a perspectiva de negócio, estes projetos abrem espaço para redução de custos com pessoal e também para melhoria do nível de serviço para os clientes (as aplicações mais comuns estão ligadas à automatização de etapas que levam a redução do tempo de atendimento).


No entanto, toda essa autonomia propagada e que tem forte apelo junto às áreas de negócio pode ter efeitos colaterais sérios no longo prazo, sendo que os próprios provedores de soluções recomendam a criação de Centros de Excelências em RPA (Robotics Center of Excellence).


Estes centros de excelência têm como objetivos o estabelecimento uma governança sobre o uso, a capacitação de pessoal, o desenvolvimento das primeiras automações, a conexão com a área de TI, o monitoramento do desempenho, a mitigação dos riscos de segurança da informação e o estabelecimento de planos de continuidade de negócio (sim, os robôs também quebram).


Para se ter uma ideia do potencial deste segmento, a Microsoft anunciou no dia 19 de maio a aquisição da Softomotive, uma empresa de software grega, fundada em 2005, que desenvolve soluções de RPA para o mercado corporativo. Em um movimento semelhante, a Oracle mantém uma parceria estratégica com a UiPath, uma das soluções líderes e que tem valor de mercado aproximado de U$ 7 bilhões.


Além de despertar o interesse das empresas de software, grandes consultorias como Deloitte, Accenture e Ernst & Young também passaram a incorporar o RPA como parte dos seus portfólios de serviços, contribuindo com a consolidação do uso da tecnologia em grandes empresas.


Para alguns especialistas, no entanto, o RPA deveria ser considerado apenas uma solução de caráter paliativo, devendo operar apenas pelo período suficiente para que as integrações sejam desenvolvidas ou então novas soluções end-to-end implementadas, eliminando assim a sua necessidade.


Essa visão que trata o RPA é uma espécie de “operação tapa buraco” nos fluxos de trabalho traz consigo uma provocação importante sobre a amplitude de uso e o seu potencial de retorno. As empresas devem ponderar sobre o deveria ser integrado usando APIs, substituído por soluções end-to-end ou o que realmente poderia ser automatizado. O que já está evidente é que o RPA não é uma bala de prata para ganhos de eficiência de curto prazo.


Considerando a minha experiência na gestão de equipes que atuam neste tema e tendo construído bons casos de uso, minha avaliação é que essa tecnologia gera eficiência operacional, reduz a pressão por integrações entre sistemas e que portanto, deve seguir em uso nas empresas.


Porém, mesmo sendo um entusiasta do tema, entendo que os benefícios do RPA tenham sido superestimados pelo mercado e considero que estamos em um momento de inflexão e recalibragem das expectativas geradas. Mais do que nunca é importante demostrar os ganhos de cada automação (seja seletivo nos projetos candidatos à automação e monitore o desempenho).


Além disto, imagino que este mercado ainda deve amadurecer bastante nos próximos anos, passando por movimentos de consolidação das atuais soluções líderes por parte das gigantes de software e o surgimento de novos entrantes.


Portanto, minha recomendação final para um líder que utiliza ou pretende utilizar RPA é que o faça com extremo pragmatismo, adotando uma solução que tenha os conectores para os principais sistemas internos utilizados na empresa, reduzindo assim a curva de tempo para captura de valor dos projetos.


Boa jornada de digitalização!

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